sexta-feira, 19 de abril de 2013

Se Sabe


Diz o velho ditado:
Quem sabe, sabe.
Mas um velho mais sábio
Disse um dia o que sabia
E não sabia de nada.
Quem sabe, sabe que nada sabe.

domingo, 2 de setembro de 2012

Luminado

Afaga, afaga e afoga a tristeza que adormece estendida.
Consola, consola e isola no peito a mágoa escondida.
Invoca, invoca e toca essa canção sofrida.
Canta, canta e arranca da garganta a ferida.

Três dias de festa, três noites de luar,
Quatro dias perdido, semanas a vagar.
Tantas horas se passam sem relógio a bater,
São os sinos do vento com a água a correr.

Doce sombra de mangueira em flor ao sol do meio-dia,
Correm fátuas nuvens de verão compondo fantasia.
Chove, chove pequenos sois entre as folhagens,
Rio de luz tensa se esgueira transbordando suas margens.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Longe Perto


Longe...
Longe perto
Perto do deserto
Tão vazio e certo
Desperto no mesmo instante
Distante de todo agora
Hora após hora sem sono
Sonoro silêncio do ser
Ser não mais inteiro
Tinteiro sem pena e papel
Dossel nebuloso e triste
Existe tamanha aflição
Ficção das noites loquazes
Quase que agarra os desejos
Dez beijos na fronte
Horizonte fugidio
Esguio, desfia seus cheiros
Cativeiros em doces plumas
Bruma, peito orvalhado
Rosto suado, sentido, sem tino
Destino o pensamento ao vento
Intento, no entanto, malogrado
Calado, em paz e agonia
Mania de felicidade
Cidade só
Só saudade!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Esvaindo...

Estou com fome! Ainda bem que deixei comida pronta. Quando chegar em casa boto no microondas e pronto. Enquanto isso, tomo um banho quente. Estou exausta! Graças a deus não trabalho amanhã. Vou poder descansar um pouco. Nossa! Já são quase onze da noite e esse ônibus não anda... Finalmente! Quando vou poder comprar um carro pra me livrar disso? Ter que aprender a dirigir vai ser terrível!
E assim ela desceu do ônibus e caminhou como de costume em direção à sua casa. Tudo como sempre, até que algo estranho a despertou daquela rotina. Não sabia exatamente o que era. Uma sensação esquisita. Olhou várias vezes para trás procurando se havia alguém lhe seguindo. A rua estava deserta. Na verdade, preferia que tivesse alguém, não lhe seguindo, mas alguém. Tentou voltar aos seu pensamentos normais. “Esses saltos me matam!” Mas agora sentia medo. Percebeu com espanto que seu coração estava mais acelerado que o normal. Pequenos pontos começaram a brilhar em seu rosto. Transpirava, mas não sentia calor. Sentiu que deveria apressar o passo. Quase pôde ouvir outros passos. Suas pernas tremeram e seu estômago encolheu, fazendo com que involuntariamente diminuísse o ritmo da caminhada. Estava ficando doente? Mas... doente de quê? Estava alucinando? Não! Tinha certeza que algo de mal se aproximava dela. Como num pesadelo, tentava andar mais rápido, mas suas pernas ficavam cada vez mais pesadas. Ofegava pelo esforço. Pensou em telefonar para alguém, para a polícia, mas suas mãos já estavam ocupadas apoiadas nos muros para ajudar a andar. Já não enxergava com tanta clareza. Uma manto pesado, escuro e denso parecia ter se derramado sobre ela, enquanto se debatia para não sufocar. O que queriam dela? Por que esperavam? Por que se escondiam? Ela já era um alvo fácil demais e ainda não tinha sido abordada. Não olhava mais pra trás porque tinha certeza que seja lá quem ou o que fosse poderia alcançá-la a qualquer momento. Teve a impressão de ouvir sussurros e parou na esquina seguinte para tirar os sapatos. Ficou estarrecida e ainda mais aflita quando percebeu que de alguma forma pegou o caminho errado. Como era possível?! Não entrou em nenhuma rua diferente, mas definitivamente daquela esquina em diante não era o caminho de sua casa. Agora ela já recusava terminantemente olhar para trás. O que fazer? Esperar? Como chegar em casa por essas ruas que ela nunca viu? Seu corpo, cada vez mais pesado e invertebrado não quer se mover.  Não tinha mais forças. A escuridão aumentava e ela sentia como se escorresse pelo ralo. Desmanchava-se como manteiga ao calor. Fez-se em mil pedaços quando algo pareceu cair sobre ela. Sentiu-se fragmentada e espalhada, cacos de todas as formas, irregulares. Podia sentir o espaço entre cada pedaço e sabia que cada um deles era ela. Foi soprada para alguma direção que não podia mais ver. Juntaram-se-lhe mil outros pedaços e ela já não sabia mais quem era, quantos eram, o que é ser. Não era mais. Não tinha mais peso, não tinha mais medo, não tinha mais dor, não tinha nada. Não tinha sequer o vazio, a solidão ou qualquer necessidade explicação ou justificação. Ela não era mais, não estava mais, não pensava mais, não se sabia mais. Apenas... sabia!

sábado, 21 de abril de 2012

Última Tribo

Última Tribo ressurgindo das cinzas e escombros!
Voltando aos ensaios e preparando gravação.

Confira o site: Última Tribo.com

Página no facebook:

Página no Google+:

domingo, 1 de janeiro de 2012

Crepúsculo Infinito

Teu murmúrio será meu abrigo
Ouvirei teu movimento desesperado
Acalmar o silêncio que está comigo
E despertar o grito silenciado
Sentirei o cheiro do voraz castigo
Que fez o sangue sujo ser lavado

As águas do teu frio lamento
Escorrerão para o céu fechado
Abrirão sem usar argumento
As paredes que sobem ao teu lado
Queimarão toda a dor do pensamento
Que faz descer a lágrima do rosto angustiado

Vamos respirar a luz que cobre o futuro
E descobrir que o destino não está marcado
Vamos abrir as portas do escuro
E sentir o brilho ecoar por todo lado
Quebrar o teto do nosso casulo
E soltar o medo que está no peito cravado

(1991)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Não Há

E eu vou seguindo os meus pés
Por onde eu já não sei andar
Não dá para chorar a solidão
Quando se vive sozinho ao relento
Eu não aguento tanta luz ao meu redor
E o pior é que o tempo já passou
Lançou os sonhos no passado
Calados, sombrios, vãos
De vez em quando quase sempre fico só
Só apareço quando me convém
Não vem ninguém ao meu socorro
E se eu corro é pra não ser visto
Eu insisto: não estou aqui

Com os meus olhos não vejo
Além da minha consciência
E essa ausência é só uma luz que ainda não apagou
Levei um tempo pra entender
Que tender pra essa direção
É tão perigoso quanto inevitável
Não é amável o que ao destino ofereço
Desço à rua a passos lentos
Sonolentos são esses dias tristes
Mas existem as noites cheias de quebranto
Por isso eu canto tanto quanto posso viver
Pois que não há outro sentido
Então eu sigo, eu digo: ninguém fica aqui

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Anoitecendo

A noite acorda sonolenta
Traz os olhos rasos d’água
Levanta triste e quente
Pronta pra chover
A menina apressa o passo
Outra vez quer tentar escapar
O incauto afrouxa sua gravata
Enquanto espera a sua vez
Perto dali, longe e indiferente
O senhor enxuga a testa
Está pesado e contente
Seu banquete ainda vai durar
Ninguém reclama das luzes ácidas
Que querem impedir a noite entrar
Ela se ergue e se estende
Abafando cores e lamentos
O profeta hasteia seu arpão
E o louco grita de terror
Calam solenes as ruas
O céu desaba a conta-gotas
Numa melodia suave e constante
Condoída e sorridente
As hostes de sedentos ululam
Trôpegos, amigáveis, virulentos
Ganidos e sussurros vagueiam
Pecados e mendigos despertam
A noite socorre e alenta
Quem já não tem inocência
Desnuda e santifica
Quem sobreviveu nos escombros
Suave e cortante
Sua pena é fatal

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Olhos de Luz

E essa sua luz
Que me seduz
Que me conduz
Ao infinito
E seus lábios
Doces, tenros
Paraíso e pecado
Silenciam o passado
E seus olhos mais que estrelas
Inflamam com suas centelhas.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Deixe

Deixe-me longe
Deixe-me aqui
Sigo a estrada esquecida
Não me procure no retrovisor
Não pergunte
Não ouça
Deixe-me tanto quanto for possível
Deixe-me só
Só o pó da estrada
E os ossos revirados pelo cão que vadia
Vá dias à frente
E não veja o tempo passar
Não espere remissão
Não existe perdão no esquecimento
Cimento sepulta meus passos
Não há pegadas
Não há sentido ou razão
Deixe-me fora
Dos espaços, dos compassos
Fora de questão
Os que estão à sombra
Podem fartar-se
Afastar-se da distância velada
Vela da proa sem vento
Vem tua brisa soprar anseios
Nos seios da calma morte.