segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Após Calipso


Essa é pra quando os porcos se afogarem na lama
Essa é pra quando acabarem os fins de semana
Essa é pra quando as entranhas estiverem sendo expostas
Essa é pra quando as perguntas já tiverem respostas

Essa é pra quando iluminarem o lado escuro da lua
Essa é pra quando calarem as ambulâncias na rua
Essa é pra quando o cobertor não evitar o frio
Essa é pra quando os magazines estiverem vazios

Essa é pra quando a platéia não poder aplaudir
Essa é pra quando quem entrar não conseguir mais sair
Essa é pra quando as leis não puderem dar jeito
Essa é pra quando a cicuta não fizer mais efeito

Essa é pra quando a verdade despencar da janela
Essa é pra quando o cadeado não trancar mais a cela
Essa é pra quando as estradas estiverem interditadas
Essa é pra quando os contra cheques não servirem pra nada

Essa é pra quando acabar todo o combustível
Essa é pra quando respirar já não for mais possível
Essa é pra quando as máscaras caírem dos rostos
Essa é pra quando a sentinela abandonar o posto

Essa é pra quando Judas retornar do inferno
Essa é pra quando terminarem as juras de amor eterno
Essa é pra quando o tímpano estiver perfurado
Essa é pra quando Deus estiver acordado


Essa música, que inspira o título deste blog, faz parte do disco Duplo Sentido, do Camisa de Vênus, lançado em 1987.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Do Calar

Quando digo eu não falo
Quando penso eu não digo
Escondido, sozinho, fechado
Trancado sem chave ou segredo
Silencio a dor da ferida
Apago a chama, deixo escondida
As dores, amores, as cores
As flores, odores, sabores
Tudo fechado, cerrado
Assunto encerrado
Monólogo mudo e sem gestos
Sinais de fumaça na neblina
Voz átona e atônita
Livro aberto sem palavras

Grito surdo ecoa
Olhares cortam, rasgam
Ouço e vejo e calo
Sinto, consinto, não falo
As palavras surdas são ouvidas
Apenas por quem quer ouvir
E são claras e fortes
Sinceras, aço e mel
Palavras sem boca
Que são ditas sem som
Escrevo, estremeço, adormeço
Acordo ouvindo e calado
Tênue linguagem criptografada
Sublime subliminar mensagem
Tão evidente e sutil
Como um raio de sol da alvorada

Mas vejo uma luz, um sol, uma estrela
Lua cheia, cheia de vida
Que me desperta e me abraça
Irrompe em meu coração
E aperta e liberta
E aquece e completa
Os sentimentos transbordam
E as palavras ditas brotam
Todo o esforço do grito
Agora parece vão
Versos, cálidos bólidos
Fluem com a respiração
Não me pergunta nada
Mas simplesmente falo
Calo às avessas
Conto o que eu nunca senti