Afaga, afaga e afoga a tristeza que adormece estendida.
Consola, consola e isola no peito a mágoa escondida.
Invoca, invoca e toca essa canção sofrida.
Canta, canta e arranca da garganta a ferida.
Três dias de festa, três noites de luar,
Quatro dias perdido, semanas a vagar.
Tantas horas se passam sem relógio a bater,
São os sinos do vento com a água a correr.
Doce sombra de mangueira em flor ao sol do meio-dia,
Correm fátuas nuvens de verão compondo fantasia.
Chove, chove pequenos sois entre as folhagens,
Rio de luz tensa se esgueira transbordando suas margens.
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domingo, 2 de setembro de 2012
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Longe Perto
Longe...
Longe perto
Perto do deserto
Tão vazio e certo
Desperto no mesmo instante
Distante de todo agora
Hora após hora sem sono
Sonoro silêncio do ser
Ser não mais inteiro
Tinteiro sem pena e papel
Dossel nebuloso e triste
Existe tamanha aflição
Ficção das noites loquazes
Quase que agarra os desejos
Dez beijos na fronte
Horizonte fugidio
Esguio, desfia seus cheiros
Cativeiros em doces plumas
Bruma, peito orvalhado
Rosto suado, sentido, sem tino
Destino o pensamento ao vento
Intento, no entanto, malogrado
Calado, em paz e agonia
Mania de felicidade
Cidade só
Só saudade!
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Esvaindo...
Estou
com fome! Ainda bem que deixei comida pronta. Quando chegar em casa
boto no microondas e pronto. Enquanto isso, tomo um banho quente. Estou
exausta! Graças a deus não trabalho amanhã. Vou poder descansar um
pouco. Nossa! Já são quase onze da noite e esse ônibus não anda...
Finalmente! Quando vou poder comprar um carro pra me livrar disso? Ter
que aprender a dirigir vai ser terrível!
E
assim ela desceu do ônibus e caminhou como de costume em direção à sua
casa. Tudo como sempre, até que algo estranho a despertou daquela
rotina. Não sabia exatamente o que era. Uma sensação esquisita. Olhou
várias vezes para trás procurando se havia alguém lhe seguindo. A rua
estava deserta. Na verdade, preferia que tivesse alguém, não lhe
seguindo, mas alguém. Tentou voltar aos seu pensamentos normais. “Esses
saltos me matam!” Mas agora sentia medo. Percebeu com espanto que seu
coração estava mais acelerado que o normal. Pequenos pontos começaram a
brilhar em seu rosto. Transpirava, mas não sentia calor. Sentiu que
deveria apressar o passo. Quase pôde ouvir outros passos. Suas pernas
tremeram e seu estômago encolheu, fazendo com que involuntariamente
diminuísse o ritmo da caminhada. Estava ficando doente? Mas... doente de
quê? Estava alucinando? Não! Tinha certeza que algo de mal se
aproximava dela. Como num pesadelo, tentava andar mais rápido, mas suas
pernas ficavam cada vez mais pesadas. Ofegava pelo esforço. Pensou em
telefonar para alguém, para a polícia, mas suas mãos já estavam ocupadas
apoiadas nos muros para ajudar a andar. Já não enxergava com tanta
clareza. Uma manto pesado, escuro e denso parecia ter se derramado sobre
ela, enquanto se debatia para não sufocar. O que queriam dela? Por que
esperavam? Por que se escondiam? Ela já era um alvo fácil demais e ainda
não tinha sido abordada. Não olhava mais pra trás porque tinha certeza
que seja lá quem ou o que fosse poderia alcançá-la a qualquer momento.
Teve a impressão de ouvir sussurros e parou na esquina seguinte para
tirar os sapatos. Ficou estarrecida e ainda mais aflita quando percebeu
que de alguma forma pegou o caminho errado. Como era possível?! Não
entrou em nenhuma rua diferente, mas definitivamente daquela esquina em
diante não era o caminho de sua casa. Agora ela já recusava
terminantemente olhar para trás. O que fazer? Esperar? Como chegar em
casa por essas ruas que ela nunca viu? Seu corpo, cada vez mais pesado e
invertebrado não quer se mover. Não tinha mais forças. A escuridão
aumentava e ela sentia como se escorresse pelo ralo. Desmanchava-se como
manteiga ao calor. Fez-se em mil pedaços quando algo pareceu cair sobre
ela. Sentiu-se fragmentada e espalhada, cacos de todas as formas,
irregulares. Podia sentir o espaço entre cada pedaço e sabia que cada um
deles era ela. Foi soprada para alguma direção que não podia mais ver.
Juntaram-se-lhe mil outros pedaços e ela já não sabia mais quem era,
quantos eram, o que é ser. Não era mais. Não tinha mais peso, não tinha
mais medo, não tinha mais dor, não tinha nada. Não tinha sequer o vazio,
a solidão ou qualquer necessidade explicação ou justificação. Ela não
era mais, não estava mais, não pensava mais, não se sabia mais.
Apenas... sabia!
domingo, 1 de janeiro de 2012
Crepúsculo Infinito
Teu murmúrio será meu abrigo
Ouvirei teu movimento desesperado
Acalmar o silêncio que está comigo
E despertar o grito silenciado
Sentirei o cheiro do voraz castigo
Que fez o sangue sujo ser lavado
As águas do teu frio lamento
Escorrerão para o céu fechado
Abrirão sem usar argumento
As paredes que sobem ao teu lado
Queimarão toda a dor do pensamento
Que faz descer a lágrima do rosto angustiado
Vamos respirar a luz que cobre o futuro
E descobrir que o destino não está marcado
Vamos abrir as portas do escuro
E sentir o brilho ecoar por todo lado
Quebrar o teto do nosso casulo
E soltar o medo que está no peito cravado
(1991)
Ouvirei teu movimento desesperado
Acalmar o silêncio que está comigo
E despertar o grito silenciado
Sentirei o cheiro do voraz castigo
Que fez o sangue sujo ser lavado
As águas do teu frio lamento
Escorrerão para o céu fechado
Abrirão sem usar argumento
As paredes que sobem ao teu lado
Queimarão toda a dor do pensamento
Que faz descer a lágrima do rosto angustiado
Vamos respirar a luz que cobre o futuro
E descobrir que o destino não está marcado
Vamos abrir as portas do escuro
E sentir o brilho ecoar por todo lado
Quebrar o teto do nosso casulo
E soltar o medo que está no peito cravado
(1991)
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Não Há
E eu vou seguindo os meus pés
Por onde eu já não sei andar
Não dá para chorar a solidão
Quando se vive sozinho ao relento
Eu não aguento tanta luz ao meu redor
E o pior é que o tempo já passou
Lançou os sonhos no passado
Calados, sombrios, vãos
De vez em quando quase sempre fico só
Só apareço quando me convém
Não vem ninguém ao meu socorro
E se eu corro é pra não ser visto
Eu insisto: não estou aqui
Com os meus olhos não vejo
Além da minha consciência
E essa ausência é só uma luz que ainda não apagou
Levei um tempo pra entender
Que tender pra essa direção
É tão perigoso quanto inevitável
Não é amável o que ao destino ofereço
Desço à rua a passos lentos
Sonolentos são esses dias tristes
Mas existem as noites cheias de quebranto
Por isso eu canto tanto quanto posso viver
Pois que não há outro sentido
Então eu sigo, eu digo: ninguém fica aqui
Por onde eu já não sei andar
Não dá para chorar a solidão
Quando se vive sozinho ao relento
Eu não aguento tanta luz ao meu redor
E o pior é que o tempo já passou
Lançou os sonhos no passado
Calados, sombrios, vãos
De vez em quando quase sempre fico só
Só apareço quando me convém
Não vem ninguém ao meu socorro
E se eu corro é pra não ser visto
Eu insisto: não estou aqui
Com os meus olhos não vejo
Além da minha consciência
E essa ausência é só uma luz que ainda não apagou
Levei um tempo pra entender
Que tender pra essa direção
É tão perigoso quanto inevitável
Não é amável o que ao destino ofereço
Desço à rua a passos lentos
Sonolentos são esses dias tristes
Mas existem as noites cheias de quebranto
Por isso eu canto tanto quanto posso viver
Pois que não há outro sentido
Então eu sigo, eu digo: ninguém fica aqui
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Anoitecendo
A noite acorda sonolenta
Traz os olhos rasos d’água
Levanta triste e quente
Pronta pra chover
A menina apressa o passo
Outra vez quer tentar escapar
O incauto afrouxa sua gravata
Enquanto espera a sua vez
Perto dali, longe e indiferente
O senhor enxuga a testa
Está pesado e contente
Seu banquete ainda vai durar
Ninguém reclama das luzes ácidas
Que querem impedir a noite entrar
Ela se ergue e se estende
Abafando cores e lamentos
O profeta hasteia seu arpão
E o louco grita de terror
Calam solenes as ruas
O céu desaba a conta-gotas
Numa melodia suave e constante
Condoída e sorridente
As hostes de sedentos ululam
Trôpegos, amigáveis, virulentos
Ganidos e sussurros vagueiam
Pecados e mendigos despertam
A noite socorre e alenta
Quem já não tem inocência
Desnuda e santifica
Quem sobreviveu nos escombros
Suave e cortante
Sua pena é fatal
Traz os olhos rasos d’água
Levanta triste e quente
Pronta pra chover
A menina apressa o passo
Outra vez quer tentar escapar
O incauto afrouxa sua gravata
Enquanto espera a sua vez
Perto dali, longe e indiferente
O senhor enxuga a testa
Está pesado e contente
Seu banquete ainda vai durar
Ninguém reclama das luzes ácidas
Que querem impedir a noite entrar
Ela se ergue e se estende
Abafando cores e lamentos
O profeta hasteia seu arpão
E o louco grita de terror
Calam solenes as ruas
O céu desaba a conta-gotas
Numa melodia suave e constante
Condoída e sorridente
As hostes de sedentos ululam
Trôpegos, amigáveis, virulentos
Ganidos e sussurros vagueiam
Pecados e mendigos despertam
A noite socorre e alenta
Quem já não tem inocência
Desnuda e santifica
Quem sobreviveu nos escombros
Suave e cortante
Sua pena é fatal
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Olhos de Luz
E essa sua luz
Que me seduz
Que me conduz
Ao infinito
E seus lábios
Doces, tenros
Paraíso e pecado
Silenciam o passado
E seus olhos mais que estrelas
Inflamam com suas centelhas.
Que me seduz
Que me conduz
Ao infinito
E seus lábios
Doces, tenros
Paraíso e pecado
Silenciam o passado
E seus olhos mais que estrelas
Inflamam com suas centelhas.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Deixe
Deixe-me longe
Deixe-me aqui
Sigo a estrada esquecida
Não me procure no retrovisor
Não pergunte
Não ouça
Deixe-me tanto quanto for possível
Deixe-me só
Só o pó da estrada
E os ossos revirados pelo cão que vadia
Vá dias à frente
E não veja o tempo passar
Não espere remissão
Não existe perdão no esquecimento
Cimento sepulta meus passos
Não há pegadas
Não há sentido ou razão
Deixe-me fora
Dos espaços, dos compassos
Fora de questão
Os que estão à sombra
Podem fartar-se
Afastar-se da distância velada
Vela da proa sem vento
Vem tua brisa soprar anseios
Nos seios da calma morte.
Deixe-me aqui
Sigo a estrada esquecida
Não me procure no retrovisor
Não pergunte
Não ouça
Deixe-me tanto quanto for possível
Deixe-me só
Só o pó da estrada
E os ossos revirados pelo cão que vadia
Vá dias à frente
E não veja o tempo passar
Não espere remissão
Não existe perdão no esquecimento
Cimento sepulta meus passos
Não há pegadas
Não há sentido ou razão
Deixe-me fora
Dos espaços, dos compassos
Fora de questão
Os que estão à sombra
Podem fartar-se
Afastar-se da distância velada
Vela da proa sem vento
Vem tua brisa soprar anseios
Nos seios da calma morte.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Indo...
Mais um passo no abismo.
Não é o topo do penhasco.
É o lugar mais baixo.
É preciso galgá-lo novamente
Para do alto outra vez atirar-se.
Juntar os pedaços e seguir sem esperança.
Contar com o improvável sem esperá-lo.
Seguir fragmentado pra viver por inteiro.
Não subir o monte é morrer-se.
Não se jogar é tão ruim quanto esses versos.
Sem inspiração.
Prisão.
Condenar-se.
Não é o topo do penhasco.
É o lugar mais baixo.
É preciso galgá-lo novamente
Para do alto outra vez atirar-se.
Juntar os pedaços e seguir sem esperança.
Contar com o improvável sem esperá-lo.
Seguir fragmentado pra viver por inteiro.
Não subir o monte é morrer-se.
Não se jogar é tão ruim quanto esses versos.
Sem inspiração.
Prisão.
Condenar-se.
domingo, 26 de junho de 2011
Números
Há algum tempo recebi um e-mail assombrado com as datas que veríamos neste ano. 1/1/11, 11/1/11, 11/11/11 e 1/11/11. Eu ainda acrescentaria 20/11/2011. O espantado e-mail perguntava pela explicação dessa coisa apocalíptica. Eis minha resposta:
É fácil explicar. Nosso sistema numérico é o decimal, ou seja, utilizamos apenas DEZ caracteres para representar todos os números. Então, depois de algum tempo, na sucessão normal da combinação entre os caracteres haverá pares ordenados e combinações que nos farão lembrar números e coisas que já conhecemos. O mundo não vai acabar porque o odômetro do seu carro vai marcar 111111 quilômetros rodados. Você não é a besta-fera porque recebeu um número de inscrição ou na certidão de nascimento 666 ou 111111. Num país com quase duzentos milhões de habitantes, alguém vai receber uma numeração 66666. Também não se espante se esse for o milésimo centésimo décimo primeiro e-mail na sua caixa de entrada. Os números sempre se repetiram e assim continuarão. E as superstições baseadas nas conincidências numéricas também.
É fácil explicar. Nosso sistema numérico é o decimal, ou seja, utilizamos apenas DEZ caracteres para representar todos os números. Então, depois de algum tempo, na sucessão normal da combinação entre os caracteres haverá pares ordenados e combinações que nos farão lembrar números e coisas que já conhecemos. O mundo não vai acabar porque o odômetro do seu carro vai marcar 111111 quilômetros rodados. Você não é a besta-fera porque recebeu um número de inscrição ou na certidão de nascimento 666 ou 111111. Num país com quase duzentos milhões de habitantes, alguém vai receber uma numeração 66666. Também não se espante se esse for o milésimo centésimo décimo primeiro e-mail na sua caixa de entrada. Os números sempre se repetiram e assim continuarão. E as superstições baseadas nas conincidências numéricas também.
sábado, 4 de setembro de 2010
Dancing with Lady Death
I can see the valley
I can see the flowers
The wind blows the way
The clouds cover the towers
They dance happily
All together hold hands
Running and jumping lightly
As never seen the these lands
No more sorrow
No more pain
No more tomorrow
No more rain
And is so sublime
The whiteness of their faces
The dark brightness of their eyes
So much glory and grace
They go up the hill
To meet the great mother
She awaits with sweetness and thrill
All the answers she can offer
I can see the flowers
The wind blows the way
The clouds cover the towers
They dance happily
All together hold hands
Running and jumping lightly
As never seen the these lands
No more sorrow
No more pain
No more tomorrow
No more rain
And is so sublime
The whiteness of their faces
The dark brightness of their eyes
So much glory and grace
They go up the hill
To meet the great mother
She awaits with sweetness and thrill
All the answers she can offer
domingo, 15 de agosto de 2010
Por Baixo da Porta
De repente, um vento de esperança passa ao seu lado. Era o carteiro que lhe tinha deixado um envelope por baixo da porta. Apressou-se em abri-lo sem deixar de notar que não havia remetente. Àquela altura era possível haver alguém que lhe admirasse anonimamente? Era apenas um engano? Será que alguém já o bservava e estava apenas esperando o momento ideal pra se manifestar? Também já não é mais costume escrever cartas. Por que não um e-mail? O momento da entrega da carta teria sido calculado? Suas mãos tremiam enquanto tentava abrir o envelope com cuidado para não rasgar o conteúdo. Percebeu que havia um bom volume, pois o papel estava dobrado em algumas vezes. Seria um simples cuidado para que terceiros não pudessem ver o conteúdo? Ou realmente havia muita coisa escrita? Quem poderia ter tanto pra lhe dizer? Tantas e tantas vezes ele esperou um sorriso ou um simples aceno e só agora alguém lhe notara? Enquanto desdobrava o papel olhou de relance para o envelope agora jogado no chão e sentiu algo muito estranho. Parecia algum lampejo de felicidade por ter recebido a carta. Ao mesmo tempo estava decepcionado e até um pouco irritado por isso não ter acontecido antes. Por um instante pensou em não abrir e deixar tudo como estava. Valeria a pena arriscar uma surpresa daquelas? Talvez fosse melhor ignorar esse incidente e deixar tudo como estava nos planos. Mas as horas por que passava não lhe minimizaram a curiosidade e ele abriu o papel. Triste cena, pobre homem! A revelação da sua vida. O resumo da sua obra. O papel estava em branco! Não tinha mais perguntas. Tudo chegou a seu termo. O silêncio pálido daquele papel era a prova cabal de que viveu coerentemente com o seu destino e com seu espírito. Ao invés de qualquer outro sentimento, sentiu paz. A luz parecia ganhar intensidade e se espalhar por todo o ambiente e uma serenidade sem par lhe tomou por completo. Abriu um largo sorriso enquanto o vermelho que escorria do seu pulso engoliu a brancura e o papel repousou ao lado de sua mão aberta, de seu braço estendido.
sábado, 7 de agosto de 2010
Caminho
Não sei o que vejo
Sinto tanto desejo
Meu sonho não é mais o mesmo
Parei de andar a esmo
Sinto a luz que me acende
Ascende, afaga e entende
Suaves pétalas que abraçam
Aos poucos, nós desembaraçam
Extingue a dor que despedaça
Arranca de vez a mordaça
Paixão que embebe os sentidos
Norteia e deixa perdido
Luz áurea que entorpece
Aura que envolve e aquece.
Sinto tanto desejo
Meu sonho não é mais o mesmo
Parei de andar a esmo
Sinto a luz que me acende
Ascende, afaga e entende
Suaves pétalas que abraçam
Aos poucos, nós desembaraçam
Extingue a dor que despedaça
Arranca de vez a mordaça
Paixão que embebe os sentidos
Norteia e deixa perdido
Luz áurea que entorpece
Aura que envolve e aquece.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Insana Lucidez
Lucidez demais é loucura. Impossível suportar por muito tempo. Mais uma vez estamos em torno de ciclos, círculos. As extremidades se tocam, não se sabe exatamente onde. O pêndulo não balança, apenas gira completamente. O que é a super-visão, a total compreensão, além de uma grave patologia? Tudo suficientemente claro afeta a visão tanto quanto a escuridão. O que é mais óbvio, mais evidente, mais incontestável, pode ser simplesmente o mais absurdo, inconcebível, tolo, ilusório. Subir um pouco mais ao cimo do monte, sair brevemente da caverna de Platão é como uma insônia. É como estar acordado duas vezes. Isso deslumbra ao mesmo tempo em que dói e angustia. Corta o peito e rasga a alma de cima a baixo, como num golpe se rasga o véu do templo. Quanto mais alto se sobe, mais se quer atirar lá de cima. Quanto mais claro se vê, mais se quer mergulhar na mais profunda e eterna escuridão. Contraditoriamente, o desejo impele para o alto, para a luz. E esse desejo move o mundo. Viver é estar doente buscando uma cura que se sabe, muitas vezes, que não será encontrada. Subir a colina, acender a tocha, seguir a luz, não é buscar a imortalidade, não é fugir da morte. Viver é caminhar em direção ao abismo. Lucidez é saber que ao chegar lá teremos que pular. E quanto mais se tentar evitar o salto, mais decrépitos ficamos para amenizar o impacto. Quanto mais cedo, menor a dor. Nunca se deve adiar, quando muito, antecipar. Mas calma lá! Antes que me apedrejem ou me queiram crucificar. Não sou eu o portador desse super-poder-patologia-desvio! Não me dou esse direito-dever. Minha missão aqui é apenas divulgar/divagar devagar/devanear, além, é claro, de continuar em direção ao meu próprio abismo (sabendo ou não onde ele está).
sábado, 5 de dezembro de 2009
Vá!
Vá em frente, faça
Faça agora, não depois
Amanhã o porvir
Pode não vir
Seja mesquinho, egoísta
Mas seja inteiro
Não viva pela metade
Pois a morte é completa
Cometa os mesmos erros
Peque e pague
Não corrija os tolos
Pois loucos são loucos
Beba e cuspa paixão
Escarneie com amor
Às favas as mágoas
Aos porcos as virtudes
Rasgue suas chances
Coma os pedaços
Fuja, negue, consinta
Renda-se à sua fraqueza
Faça agora, não depois
Amanhã o porvir
Pode não vir
Seja mesquinho, egoísta
Mas seja inteiro
Não viva pela metade
Pois a morte é completa
Cometa os mesmos erros
Peque e pague
Não corrija os tolos
Pois loucos são loucos
Beba e cuspa paixão
Escarneie com amor
Às favas as mágoas
Aos porcos as virtudes
Rasgue suas chances
Coma os pedaços
Fuja, negue, consinta
Renda-se à sua fraqueza
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Explodindo
Sou a bala no revólver
Esperando o gatilho
E estou pronto pra explodir
E estou pronto pra voar
Não sei o que é paz
Eu sou o filho do fogo
Nasço e queimo até morrer
E acendo-me de novo
Morrendo todo dia
Renascendo no escuro
Indo e voltando no tempo
O meu passado é futuro
Sou a bala no revólver
Esperando o gatilho
E estou pronto pra explodir
E estou pronto pra voar
Agora eu posso voar
Depois sou cinza no chão
Em mil pedaços em vou
Juntar os cacos então
Nascendo dos escombros
Não sou o mesmo, eu sei
Sou todo e parte do todo
Metade do que serei
Sou a bala no revólver
Esperando o gatilho
E estou pronto pra explodir
E estou pronto pra voar
Esperando o gatilho
E estou pronto pra explodir
E estou pronto pra voar
Não sei o que é paz
Eu sou o filho do fogo
Nasço e queimo até morrer
E acendo-me de novo
Morrendo todo dia
Renascendo no escuro
Indo e voltando no tempo
O meu passado é futuro
Sou a bala no revólver
Esperando o gatilho
E estou pronto pra explodir
E estou pronto pra voar
Agora eu posso voar
Depois sou cinza no chão
Em mil pedaços em vou
Juntar os cacos então
Nascendo dos escombros
Não sou o mesmo, eu sei
Sou todo e parte do todo
Metade do que serei
Sou a bala no revólver
Esperando o gatilho
E estou pronto pra explodir
E estou pronto pra voar
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Fim de Domingo
Meus passos marcados, meus traços riscados
Não são apagados pelo sutil farfalhar das folhas ao vento.
Mas minhas certezas são pulverizadas
Por teu breve e suave alento.
Não são apagados pelo sutil farfalhar das folhas ao vento.
Mas minhas certezas são pulverizadas
Por teu breve e suave alento.
(Esses versos saíram de improviso e não foram anotados por mim. Mas como foram resgatados de forma singular e inesperada resolvi derramá-los aqui, como forma de agradecer a quem os salvou.)
domingo, 22 de novembro de 2009
Eu Não Sou
Eu não sou
Eu já fui
Inda vou
Estou aqui no ocaso
Com a certeza do atraso
Agora sei
Passei e ainda passo
Vou, vôo, vejo e disfarço
Em cores e rubores evidentes
Momentos em que compondo desfaço
Estou pleno, certo e excesso
Do mais profundo e extenso nada
Estou só
Estou solidão
Completo, vazio e vão
Agora sei
Sei que não vivo
Sei que não morro
Sei que não tenho nenhuma essência
Flatando razão
Cuspindo demência
Suado e ofegante desfecho alegrias
Escarneço da existência
Agora sei
Sentimentos opulentos
Transbordantes
Paixão, coração, razão, afeição
Ilusões
Mergulho, afundo, afogo
Respiro
Nego, controlo, desvio
Há tanta dor
Desvario
Agora sim
Abro os braços ao infinito
Quero ver o final
Permito
Frugores, amores, temores
Despejo, descrevo
Listo substantivos
Adjetivos são fúteis
Conexões, sentidos
Inúteis
Não sou
Onde passo
Onde penso
Não me convenço
Agora não
Eu sei
Eu não sinto
Mas não minto
Mesmo que faça doer
Sigo
Não estou nas palavras que digo
Não sou os versos que escrevo
Não sou o meu canto
Mas estou cantar ao cantar
Deus mendigo
Agora sei
Eu não sei
Eu não sou
Simplesmente vou
Eu já fui
Inda vou
Estou aqui no ocaso
Com a certeza do atraso
Agora sei
Passei e ainda passo
Vou, vôo, vejo e disfarço
Em cores e rubores evidentes
Momentos em que compondo desfaço
Estou pleno, certo e excesso
Do mais profundo e extenso nada
Estou só
Estou solidão
Completo, vazio e vão
Agora sei
Sei que não vivo
Sei que não morro
Sei que não tenho nenhuma essência
Flatando razão
Cuspindo demência
Suado e ofegante desfecho alegrias
Escarneço da existência
Agora sei
Sentimentos opulentos
Transbordantes
Paixão, coração, razão, afeição
Ilusões
Mergulho, afundo, afogo
Respiro
Nego, controlo, desvio
Há tanta dor
Desvario
Agora sim
Abro os braços ao infinito
Quero ver o final
Permito
Frugores, amores, temores
Despejo, descrevo
Listo substantivos
Adjetivos são fúteis
Conexões, sentidos
Inúteis
Não sou
Onde passo
Onde penso
Não me convenço
Agora não
Eu sei
Eu não sinto
Mas não minto
Mesmo que faça doer
Sigo
Não estou nas palavras que digo
Não sou os versos que escrevo
Não sou o meu canto
Mas estou cantar ao cantar
Deus mendigo
Agora sei
Eu não sei
Eu não sou
Simplesmente vou
sábado, 14 de novembro de 2009
Minha Fonte-Jazigo
A fonte me mostra agora
O doce olhar do seu remanso
Nos seus braços estendidos descanso
Sua alma a minha revigora
Despejo sobre ela meu canto
Encho o peito e inflado suspiro
E se palavras de amor sugiro
Ela transforma dor em acalanto
Transformado em senhor e escravo
Desmancho-me na brisa calma
E se ela acende minha alma
Minha pele em seus prantos lavo
Suave jardim frio e sombrio
Com todas as cores ao vento
Vibrante em seu desalento
Não se me dá calafrio
Não me deixa arredio partir
Não me quer longe, não me quer distante
E me atrai e aprisiona a cada instante
Mas eu também já não quero ir
Meu amor e meu ódio são seus
Minha vida assim tem sentido
Acabaram os caminhos e não estou perdido
Sua língua e seus lábios são meus
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Discurso cínico-dadaísta sobre a hermenêutica do neoconceito suprassumido!
Nos liames do esquecimento encontram-se os ditames do padecimento. Obviamente o esquecimento é uma artifício deveras interessante e eficaz para certas agruras da nefanda humana\idade, como se nos observa incisivamente o martelador alemão. Mas, a despeito de tão sagaz elucubração dionisíaco-apolínea, a nominada percepção individual e universal discursada sobre as coisas, a vida, as pessoas etc atentam para o inverossímil superrelativismo do que pode ser uma harmoniosa contradição. A insistência na manutenção exacerbada de certas imagens impele a uma inobservância das práticas consideradas de boa socialização intrafamiliar. Devaneidades insculpidas nos lúgubres acentos esquizofrênicos do dualismo maniqueísta, que afeta os cérebros álgidos das religiões ocidentais, que apontam o que "é" e o que "não é" tão arrogantemente quanto assaz longe da propalada humildade. Loquaz se faz o meta-discurso de acinte ao intolerável pelos inaceitantes espiritualizados de nível cinco. Felizes alguns acoimes interpostos quando se de\aclama um cartesianismo ferrenho e tristonho. Mas se esquecem mal. Pois que Apolo não nega Dionísio! E como perguntar a Dozgchen onde está seu fundamento, se o que há é sunyata ou kenon? Virulência continua sendo a marca dos tenazes pregadores. Diametralmente do outro lado, digo-me que não sei o que não é, na medida em que não posso saber o que é, recolhendo-me à minha insignificância. Se falo mesmo na insignificância, é porque também a insignificância é vazia e, de alguma forma, não sou insignificante. Frívolas ofensas espirituais são ridículas. Como bem poderia dizer o demolidor de morais: abomino! Solta, pois, teus cães famintos de latir. Em mim não econtrarão alimento. Se sou Logos, em que parte do meu corpo ele está? Soa, soa o sino da capela da matriz. Ecoa o bramido choroso do penitente. Exprobreis os seres indigestos que não se alinham à tua matiz eunuca, caduca e decrépita, rumo ao mais baixo calão da desmesurada indigna\idade sobre insígne desequilíbrio metafórico-causal. Apressa-te com tua caritas porque é tempo. É hora. A tempestade se anuncia. É chegado o Após Calypso!!!
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