A noite desce sobre a avenida
Agora vêm as luzes da cidade
O céu fica esquecido agora
Eu vejo os carros passando
As nuvens passam sem se perceber
A chuva chega sem surpresa
Crianças brincam na calçada
Brilham agora os guarda-chuvas
Pára a chuva e tudo bem
Tudo vem como tinha de ser
Uma noite comum no meio da noite
Uma noite igual, uma noite qualquer
Restam poucas luzes acesas
Restam poucas almas na rua
Agora as estrelas são percebidas
Vem lentamente a madrugada
Eu vejo a estrela que cai
Eu vejo o orvalho surgir
A cidade ainda está sonhando
E eu estou andando aqui
A noite vai chegando ao fim
E tudo vem como tinha de ser
Uma noite comum no meio da noite
Uma noite igual, uma noite qualquer
Ando sem saber aonde vou chegar
Ando sem saber quando vou parar
A madrugada está indo embora
Tudo vem como tinha de ser
Uma alma comum no meio do mundo
Uma vida igual, uma vida qualquer
(idos de 1992)
sexta-feira, 17 de julho de 2009
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Do Calar
Quando digo eu não falo
Quando penso eu não digo
Escondido, sozinho, fechado
Trancado sem chave ou segredo
Silencio a dor da ferida
Apago a chama, deixo escondida
As dores, amores, as cores
As flores, odores, sabores
Tudo fechado, cerrado
Assunto encerrado
Monólogo mudo e sem gestos
Sinais de fumaça na neblina
Voz átona e atônita
Livro aberto sem palavras
Grito surdo ecoa
Olhares cortam, rasgam
Ouço e vejo e calo
Sinto, consinto, não falo
As palavras surdas são ouvidas
Apenas por quem quer ouvir
E são claras e fortes
Sinceras, aço e mel
Palavras sem boca
Que são ditas sem som
Escrevo, estremeço, adormeço
Acordo ouvindo e calado
Tênue linguagem criptografada
Sublime subliminar mensagem
Tão evidente e sutil
Como um raio de sol da alvorada
Mas vejo uma luz, um sol, uma estrela
Lua cheia, cheia de vida
Que me desperta e me abraça
Irrompe em meu coração
E aperta e liberta
E aquece e completa
Os sentimentos transbordam
E as palavras ditas brotam
Todo o esforço do grito
Agora parece vão
Versos, cálidos bólidos
Fluem com a respiração
Não me pergunta nada
Mas simplesmente falo
Calo às avessas
Conto o que eu nunca senti
Quando penso eu não digo
Escondido, sozinho, fechado
Trancado sem chave ou segredo
Silencio a dor da ferida
Apago a chama, deixo escondida
As dores, amores, as cores
As flores, odores, sabores
Tudo fechado, cerrado
Assunto encerrado
Monólogo mudo e sem gestos
Sinais de fumaça na neblina
Voz átona e atônita
Livro aberto sem palavras
Grito surdo ecoa
Olhares cortam, rasgam
Ouço e vejo e calo
Sinto, consinto, não falo
As palavras surdas são ouvidas
Apenas por quem quer ouvir
E são claras e fortes
Sinceras, aço e mel
Palavras sem boca
Que são ditas sem som
Escrevo, estremeço, adormeço
Acordo ouvindo e calado
Tênue linguagem criptografada
Sublime subliminar mensagem
Tão evidente e sutil
Como um raio de sol da alvorada
Mas vejo uma luz, um sol, uma estrela
Lua cheia, cheia de vida
Que me desperta e me abraça
Irrompe em meu coração
E aperta e liberta
E aquece e completa
Os sentimentos transbordam
E as palavras ditas brotam
Todo o esforço do grito
Agora parece vão
Versos, cálidos bólidos
Fluem com a respiração
Não me pergunta nada
Mas simplesmente falo
Calo às avessas
Conto o que eu nunca senti
sábado, 21 de junho de 2008
Início
Aquela Coisa
Raul Seixas/ Kika Seixas/ Cláudio Roberto
(...)
(...)
Quando o passado morreu e você não enterrou
O sofrimento do vazio e da dor
Ficam ciúmes, preconceitos de amor
E então é preciso você tentar
Mas é preciso você tentar
Talvez alguma coisa muito nova possa lhe acontecer
(...)
Pra ser feliz é olhar as coisas como elas são
Sem permitir da gente uma falsa conclusão
Seguir somente a voz do seu coração...
Começar. O sempre difícil começar. Talvez a melhor maneira de começar seja terminando. Não é começar pelo final. É começar depois do final. Então é isso! Começar com um ponto final. O ponto final fecha uma sentença. O ponto final encerra um período, uma oração. E como começar com este ponto se ele só significa fim? Ora, como começar algo sem terminar o que se tinha começado antes? Para uma nova f(r)ase faz-se necessário o ponto final. Sem ponto final não há nova frase, não há novo texto. Uma vírgula não permite começar nada, pois apenas é uma pausa na mesma oração. O ponto e vírgula apenas divide. Depois dele não se começa outro texto. E pior são as reticências, que dão certa impressão de final. Quem se engana com elas acha que começou novas sentenças, sem perceber que o que escreve ainda está ligado, ainda é em função do que ficou antes. Esse é o pior dos equívocos. Pior até mesmo do que tentar começar outro texto depois de uma vírgula. O texto fica confuso e nem mesmo o próprio autor, se parar para reler, não consegue entender. Enfim, com o perdão do trocadilho parafraseado, o ponto final é preciso e, por isso, é preciso pôr um ponto final. Alguém também poderia dizer que o termo adequado seria recomeçar. Mas, como comentei em um outro blog há alguns dias, recomeçar significa refazer, reescrever a mesma história. Voltar à estaca zero. Prefiro mesmo começar, com as experiências do que terminei. Prefiro sempre estar começando. Que o texto que comecei termine (com ponto final) e que eu comece um novo. Não pretendo reescrever meus textos. Quero escrever coisas novas. Como diz Raulzito, é preciso enterrar o passado e tentar de novo, seguindo a voz do coração. Lembro que certa vez, comentando sobre isso, questionaram-me sobre este funeral. Respondi que devemos enterrar o passado e não destruí-lo. Se o passado morreu, não há porque guardar o corpo. Enterre-o, creme-o, guarde-o só na memória. O ponto final não apaga as frases anteriores. Colocar o ponto final não é passar uma borracha. Se fosse possível apagar sempre que se fosse começar, as chances de cometer os mesmos erros seriam bem maiores. Mas colocando o ponto final temos sempre a possibilidade de reler o que já foi escrito e não nos tornarmos repetitivos, e melhorar o estilo, e melhorar o vocabulário, e melhorar o conteúdo, melhorar o texto. Sem apagar, mas colocando pontos finais, estaremos cada vez mais próximos de escrevermos nossa obra-prima, nosso best-seller. Sem isso, nunca terminaremos e nosso texto nunca será publicado. Sendo assim, cuidemos, pois, de enterrar o passado que já expirou e vejamos o que de muito novo pode nos acontecer. Que este passado seja apenas passado, pois só assim poderemos olhar para o futuro. Diria que o ponto final é um tanto quanto mágico. É como a linha de sal para as bruxas: intransponível. Quando se coloca um ponto final, o que está antes dele não volta. O passado não consegue cruzar o ponto final, assim como a bruxa não consegue atravessar a linha de sal. Então, eis como termino: pelo começo. E começo pelo ponto final. Ponto final que, afinal, é um ponto e que está pronto para outro começo (Trocadilho infame, não? Perdão, mas nunca perco um trocadilho. rsrsrs). Meu primeiro post é um ponto final. Enterrei o passado, pus um ponto final, arrisquei tentar outra vez e "alguma coisa muito nova" me aconteceu. E estamos começados. E ponto final.
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